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07/07/2020

Rumos imprevisíveis de outra descoberta


☼ Divagando no filme ☼


Há 15 dias eu lancei um desafio #divagandonofilme através deste pequeno vídeo, ⇐⇐

Qual é o nome do filme e, se possível, qual é o significado da cena?

  Quem chegou mais perto foi o amigo Vitor Antunes, que respondeu “Estou desconfiando que seja Hitchcock”!
  Sim, é Hitchcock!  Trata-se do clássico filme Psicose, de 1960
  Um filme não se torna um clássico, como Psicose se tornou, à toa!  Em qualquer detalhe está guardado o significado para demandas entusiastas de quem quer saber interpretar o porquê e para quê cada abstração, cada linha e cada gatilho são criados.

  O filme todo é uma taça cheia para quem, assim como eu, gosta de decifrar sinais, contudo, me propus, aqui, a considerar apenas a parte em que lancei o desafio.

Esse outro vídeo aponta toda a sequência da cena. 



  A parte  que aparece o disco de vinil, (LP) Beethoven, é uma das cenas que antecedem o desfecho do mistério que envolve a trama.    Lila Crane, interpretada por Vera Miles, entra na casa de Norman Bates a procura de respostas para o desaparecimento de Marion, sua irmã.  Assustada, ela observa os objetos reunidos no quarto do suspeito. Um quarto infantil, de um filho protegido pela mãe.

  Na sequência podemos notar a série de peças focalizadas. Há um boneco inclinado sobre um automóvel de brinquedo, duas vezes maior do que o carro que o sustenta na prateleira, ao lado, uma miniatura de uma casa parecida com aquela que abriga esse cenário de suspense.
  É através dos olhos de Lila que podemos identificar a relevância de cada peça para a montagem desse quebra-cabeça.

  O boneco é o primeiro objeto a ser notado por ela. A minha interpretação é como se o boneco fosse a representação do dono do quarto, sentindo-se maior em relação aos demais, e, ser maior não significa ser elevado, pois está inclinado!  E nessa posição enviesada que condiciona sua razão, ele permanece assim, talvez por não conseguir ter o que lhe falta para estar em pé. A casa, ao seu lado, é seu ponto de segurança, é o lugar onde ele é um bom filho, mas ele não pode estar dentro da casa todo o tempo...

 Depois, sobre a pequena cama desfeita, repousa um coelho de pelúcia amarelada pelo tempo, expressão zangada e aspecto de brinquedo velho. 
  A presença do coelho, na literatura e no cinema, sempre carregou um  significado triste e silencioso disfarçado de civilidade.
  Trazendo o exemplo que mais reside no senso comum, menciono o coelho de Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas, que é apresentado para o leitor já no primeiro capítulo intitulado “ Na toca do coelho”, aonde Alice, tal como Lila ao embrenhar-se no quarto de Norman, foi parar, atraída pelo animal apressado e confuso, caindo dentro de um poço, que de tão profundo, durante a queda teve tempo de olhar em volta e se perguntar o que viria depois.  

  E o que veio depois?

  Na superfície de uma pequena mesa, discos dispostos fora da capa estão ao lado de um vitrola, indicando que o aparelho fora recém manuseado, cuja melodia, fresca ainda na memória do ouvinte, é exibida com a totalidade que uma imagem pode ostentar: Eroica, 3ª sinfonia de Beethoven.
  É sabido que Beethoven desenvolveu graves problemas de audição e isso transformou também sua música, que passou a ser considerada, pela crítica da época, como música de louco para loucos”.
 Eroica é mais conhecida por seu 2º movimento, marcha fúnebre, mas é no 1º movimento, “Allegro con brio, que é possível melhor aproximar os sons da obra de Beethoven com a trilha sonora composta por Bernard Herrmann, rápida, sincopada e até dissonante. Pode-se perceber essa correspondência no vídeo abaixo, especialmente iniciando em 2'23"




  Por fim,  Lila pega um livro, mas não é qualquer livro! É o livro que nada está indicado em sua lombada, tampouco sua capa assinala sequer o rastro do que nele se encerra. Engenhosa metáfora para a dissimulação de uma perigosa armadilha.

 Sem demora, Lila avista Norman, desassossegado,  retornando à casa, e assim, também acelera os passos para não ser descoberta. Rumos imprevisíveis de outra descoberta.

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