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29/06/2020

Abandono e libertação


O vácuo das memórias


Sigo , no Youtube, um canal de Portugal chamado Rumo ao Desconhecido. Por meio de sua temática é possível conhecer lugares e casas que, em um tempo passado, constituíam em seu cenário, a presença do cotidiano útil.  Compromissos, sonhos, segredos, conversas, histórias... elementos que produzem animação para uma existência ocupavam os espaços desses locais, e, em cada canto do imóvel e, dentro de cada gaveta, agora revirada,  poderia ser identificada a substância que traduz o som mais harmonioso que um ouvido pode ouvir: vida!
Hoje, dentro desses espaços, é possível encontrar, espalhadas pelo chão, memórias que existem na extensão dos anos, mas não existem na profundidade das datas porque não há quem venha reivindicá-las. São memórias de ninguém! Também percebo os sons aprisionados em discos empoeirados, palavras mudas nas deterioradas páginas de livros cativos de um velho livreiro tombado.  Então, a pergunta que sempre faço, quando olho para esse tipo de triste paisagem, é:

De que forma acontece esse processo de transformar luz em trevas, de converter um lar em lugar estéril?

Como em minha galeria sempre haverá um espaço para as recordações, assistindo a esses episódios, pude recordar daquela música composta por Ivor Lancellotti, antiga e ao mesmo tempo atual,chamada Abandono. Foi gravada por renomados intérpretes e cantores. Fábio Jr., cantor romântico, também a gravou. Eis que observo, em lugar de destaque sobre uma estante empoeirada, a sua foto estampada em uma capa de uma revista antiga, anos 80, deixada para trás, compartilhando lugar com outros impressos também desamparados.





Mais do que coincidência! Reconheço, em minha observação, a sincronicidade especificada por Jung, afinal, os sinais são decifrados por quem os vê.

Eu vi! Eu sempre os vejo porque, em minhas divagações, eu  sempre por eles procuro.

Por consequência fiquei conjecturando essas memórias que não são minhas... A moça, que acompanhava a telenovela, esperava ávida até o final da história para que o beijo, entre os casais apaixonados, finalmente acontecesse, torcendo pelo final feliz. Poderia também ter uma paixão platônica pelo artista e, por isso, adquiriu a revista daquele tempo em que as novelas eram melhor desenvolvidas,  sinônimos de entretenimento; de um tempo em as músicas eram compostas por quem, assim como Ivor Lancellotti, sabia emoldurar sentimentos...
Aquela fotografia, aquele livro marcado na página 20, aquela poltrona acomodada na sala...tudo parece que está à espera de libertação.
Julio Cortázar já escreveu a envolvente história A Casa Tomada, carregada de segredos...
E eu, observadora das minúcias e entrelinhas, logro criar uma distinta história para esse cenário de abandono.
Aguardem pelo próximo conto de Diva Montalbán.