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21/05/2020

A quarentena e O Fazedor de velhos


Observação, leitura e música na quarentena


Nessa época, em que todos nós nos encontramos vulneráveis e desassossegados pela situação instável e preocupante que estamos vivendo,é que pude verificar a falta de empatia para com as pessoas idosas.
O idoso encontra-se no grupo de risco para o Covid-19, mas parece que a maioria o colocou no lugar do causador do risco, uma vez que definiram-no como o ser teimoso que mais atrapalha do que ajuda.

Atualmente é possível encontrar, nas redes sociais, muitas piadas e zombaria como "cata véio", severas críticas e ofensas quando vídeos de idosos vistos nas ruas são exibidos, e comentários agressivos de desaprovação pelo fato de pessoas públicas serem casadas com pessoas mais velhas e terem sido infectadas pelo corona vírus.

Utilizo redes sociais há mais de uma década, e, jamais vi, durante esse tempo todo, tamanha desconsideração pelo idoso como estou testemunhando agora.

Coincidentemente, há alguns dias, uma tia me emprestou o livro O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda.
Um livro de leitura fácil e de enredo despretensioso e espontâneo, conta a história do encontro entre dois jovens que se apaixonam.

Após a narrativa, pus-me a refletir sobre algumas passagens da história contada, analisando, com muita cautela, o conselho dado pelo professor Nabuco, personagem   do livro.

Não queiram nunca ser eternamente jovens; gostar de viver é gostar de sentir, e gostar de sentir é necessariamente, gostar de envelhecer.( Lacerda, Rodrigo. O Fazedor de Velho, p.37, ed.Cosac Naify, 2008.)

Esse pensamento me parece muito questionável.
Bem, se um livro me faz pensar, eu ja o considero um livro bom, ainda que discorde de alguns tópicos, como discordei do pensamento do professor.
Pensar sobre O Fazedor de Velhos me fez localizar, em minha trajetória de vida, muitos episódios em que fui a responsável por fazer jovens.

Assim, não concordo que gostar de sentir é gostar de envelhecer.

Como ja contei por aqui, eu participei de banda marcial. Tocava em procissões religiosas, eventos cívicos e escolares. A banda da qual fazia parte era formada , em maior número, por músicos maiores de 60 anos,  contudo, comportavam-se como jovens - a música tem esse poder!

Lembro-me de que o saudoso Maestro Salvador Gentile, músico que já tinha 80 anos, dizia-me sempre que eu não poderia faltar aos ensaios e apresentações porque eu dava vida para a corporação. Segundo ele, por eu estar sempre sorrindo, fazendo piadas, com bom humor e, acima de tudo, por conversar de igual para igual, sem fazer distinções entre jovens e idosos. - Na verdade , atribuo essa qualidade que ele viu em mim, ao aprendizado que tive por ter a oportunidade de conviver, durante toda a minha vida, com pessoas bem mais velhas, mais sábias e, concluo, mais felizes!- E eu, que a certa altura também já não era tão jovem assim,continuava sendo chamada de " a menina do sax". Vejam vocês, que privilégio! Estava eu a fazer jovens e a me fazer jovem também!

Também criei um grupo musical de serestas. Eu e mais três músicos tocávamos e cantávamos voluntariamente em lares de idosos. Lá não fazíamos velhos, afinal a música tem o poder de fazer com que viajemos para outros tempos. Eles viajavam e se faziam jovens outra vez!

Em outra ocasião da leitura, pude observar, de acordo com meu entendimento, a incompatibilidade da representação social feita de quem carrega um livro.

Em O Fazedor de Velhos há um momento em que o personagem que conta a história traz consigo um exemplar antigo de Shakespeare, com o objetivo de aparentar mais idade do que tem realmente, pois julgava que o livro o faria envelhecer.

Imagino que um livro jamais fará uma pessoa se tornar aparentemente mais velha pelo simples fato dela se interessar por literatura.
Livro é sinônimo de conhecimento, e conhecimento é descoberta.  A descoberta que faz tudo ficar diferente e novo. Novo é antônimo de velho.

Concordo que gostar de viver é gostar de sentir, todavia, professor Nabuco que me desculpe, mas gostar de sentir se harmoniza com o querer estar jovem, porque só quem é jovem, independentemente de qual idade possua, gosta de descobrir sentimentos e sensações, gosta de aprender, gosta de se surpreender... 

E nesse período crítico de pandemia, em que o ser velho é julgado e condenado por simplesmente ter vivido mais, penso que estar jovem seja a possibilidade de mostrar aos outros que viver é amar.