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04/11/2019

Bico Doce do Fogaréu




E a procissão das almas


Ele não foi um daqueles moços que saiam de suas cidades para estudar Direito no largo de São Francisco e que não retornariam mais para o interior. Ele retornou. Sua família, apesar de manter negócios em Iguape, residia em Buenos Aires, e ele, ao retornar para Iguape, recebeu o convite de um ilustre Major para que se hospedasse em seu casarão. O Major o queria como a um filho. 
Simpatizantes diziam que ele havia concluído o curso de Direito, porém outros, analíticos da vida alheia sem saber o que realmente criticar, afirmavam de pés juntos que ele fora um aluno omisso e voltou escorraçado da faculdade. 
O fato é que ele voltou, para a alegria dos amigos, e das donzelas e senhorinhas que enchiam suas vistas admirando a beleza do rapaz. 
Apreciador da leitura de poesias, recitava poemas e declamava versos nos saraus realizados pela sociedade iguapense da época, e, em razão de sua retórica expressiva e sedutora e de seu porte apolínio viril, era chamado à boca miúda de Bico Doce. 
Seu pai lhe dera terras lá pelos lados do Prelado, e o enredo das conversas nas ruas da cidade contava que era lá que ele consumava suas conquistas amorosas. 
Certa vez, prejudicado pelo falatório incontrolável das vozes indiscretas, Bico Doce sofreu as consequências de sua conduta. Um senhor poderoso e influente na cidade buscava sua vingança reparadora para tamanha desonra que lhe fora endereçada. Bico Doce havia seduzido e desonrado a filha do melhor amigo de seu pai. 

Qual seria a pior punição para tal aviltamento? 
Colérico, o pai da moça disse: — Terá que andar ajoelhado na procissão das almas! 
A pena causou estarrecimento até no padre da cidade, que rogando pelo perdão do enfurecido pai, só escutou a seguinte ordem: — Fique fora deste assunto, padre. Não tente demover-me desta determinação, ou o senhor deseja ser o padre deste cortejo? 

É sabido até hoje que tal procissão não é para ser vista pelos vivos, e o ser vivente que ousar seguir o percurso das almas, perderá o lugar entre os vivos e se transformará em mais uma sombra incorporada neste cortejo. 

 Dizem que até hoje, Bico Doce é visto, pelas frestas das janelas dos mais corajosos, marchando na temida procissão, sem ter envelhecido, vestido com seu terno de linho à moda dos antigos coronéis, impecável com exceção da mancha amarelada nos joelhos da calça porque, para pagar uma desonra, fora obrigado acompanhar ajoelhado a procissão das almas, e no término do cortejo, teve seu corpo tomado, em frente à igreja, por um fogaréu rodeado pelos fantasmas aprisionados que avançavam pela procissão.