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30/09/2020

Kratos : Perspectivas compartilhadas.

quarta-feira, setembro 30, 2020 0 Comments

 

    Um dia entrei em meu quarto e deparei-me com uma caixa embrulhada em papel de presente em cima de minha cama.  Mal sabia eu, naquele momento que, de certa forma, também se tratava de uma caixa de pandora, pois ao abri-la, também deixei escapar um vício em mim, ao descobrir, dentro dela, um Playstation 2 que  minha irmã havia comprado para mim.

    Assim, jogando avidamente God Of War, conheci Kratos, o Fantasma de Esparta.




    O jogo é construído na perspectiva de 3ª pessoa, ou seja, Kratos é o protagonista

    O jogador, através dos olhos de Kratos, consegue sentir, conhecer e, até mesmo, por uma inclinação restrita, fazer escolhas incongruentes com a personalidade do personagem, contudo, Kratos não é um simples personagem com missões vazias ou funções retilíneas. Nele se encerram dilemas específicos da natureza humana, e sua vingança, sentimento originador de toda sua história,  confere-lhe a individualidade própria dessa condição.


    Ao acompanha-lo em sua saga, é possível maravilhar-se com os lugares por ele visitados, refletir sobre proposições e figuras mitológicas, e, acima de tudo, conhecer os fundamentos de sua vingança. 

 

    Conforme destacou Jorge Luis Borges, toda história se baseia em uma dessas marcas:  sacrifício de um herói, aventura de uma viagem, relato de uma busca, ou até mesmo na situação de um lugar sitiado.


    Dessa forma, quem joga God Of War consegue perceber que a história de seu protagonista  carrega todos essas marcas. Para ele alcançar o seu propósito precisa viajar por diversos lugares, buscar indícios, escapar  de armadilhas e bloqueios por todos os lados, e, principalmente,  o seu próprio sacrifício, afinal,  Kratos está em guerra contra tudo, inclusive contra si mesmo. Nem mesmo o jogador é seu aliado.


    No entanto, no mais recente jogo da série, lançado em 2018 para o Playstation 4, é possível observar, com a evolução do game, também o desenvolvimento do personagem, que, apesar de seu passado, consegue encontrar um certo equilíbrio para sua missão, que agora existe com a figura concreta de um filho que o acompanha, e isso afeta a análise de opções e escolhas no jogo, não havendo mais espaço para decisões irracionais. Seu  ponto fraco foi convertido na presença do filho.


    Penso que  para viver uma experiência filosófica nesse contexto,  é necessário que o jogador de God Of War possua, não somente a habilidade de jogador, mas também a capacidade de fazer uma leitura dedicada e cautelosa sobre as questões que Kratos traz consigo.


    Para quem ficou com vontade de conhecer Kratos, ou quem já está se arrojando através dos passos do herói, indico um site muito relevante sobre games. No "Portal sobre jogos" há dicas interessantíssimas sobre games, e particularmente aqui (link para a postagem) , como passar com destreza pelos percalços da nova responsabilidade de Kratos, em God Of War 2018.


    Um entretenimento, uma recompensa e uma aula, pois a determinação de Kratos, apesar de tantos impasses, sempre permaneceu inalterada.

 

#divamontalban #kratos #gow #portalsobrejogos #playstation #perspectivas

 


25/09/2020

Terra dos homens e as lições de Zé Perri.

sexta-feira, setembro 25, 2020 0 Comments

☼ Você conhece Saint-Exupéry? ☼ 


    “Você conhece Saint-Exupéry? foi a pergunta que lancei há algumas semanas em minhas redes sociais. As respostas foram afirmativas, como também houve a conexão do autor com a obra O Pequeno Príncipe, escrita em 1943.

    O pequeno príncipe é uma história muito difundida, sendo considerada até piegas por conter frases e reflexões sobre amizade, amor e felicidade, frequentemente citadas nos variados círculos sociais.

     Foi na minha infância que li o pequeno príncipe, como também assisti ao filme musical de 1974, e, muito tempo depois, continuo encontrando encantamento e delicadeza na obra, contudo, volto a perguntar: “Você conhece Saint-Exupéry?

      Em Terra dos homens, o autor declara que devia para sua governanta uma página em suas memórias




Ah, eu bem te devo uma página! Quando eu voltava de minhas primeiras viagens, Mademoiselle, eu te encontrava com agulha na mão(...)preparando sempre com tuas mãos aqueles linhos sem dobras para nossos sonhos(...) p.59


    Assim, também dedico uma página ao prezado Zé Perri, que, de maneira tão individual, com suas mãos também costura uma manta sem dobras para agasalhar nossa imaginação.

    Para quem ainda desconhece, Antoine de Saint-Exupéry trabalhou no serviço aéreo postal da França, e nos anos 30, prestou serviços em solo brasileiro, nas cidades de Florianópolis, Natal, Recife e Rio de Janeiro.     Em seu livro intitulado Voo Noturno, o autor descreve seu ofício de piloto, suas rotas e aventuras.

    Foi aqui, no Brasil, que seus amigos brasileiros, na dificuldade de pronunciar seu nome, o chamaram carinhosamente de Zé Perri. Também foi em Recife que possivelmente teve inspiração para o pequeno príncipe, quando viu o centenário e gigante baobá que até hoje vive altivo em frente ao Palácio dos Campos da Princesa, sede do poder executivo do estado.

    Sem embargo, venho trazer nessa postagem, a significação do que absorvi da leitura que fiz de Terra dos Homens, a obra que considero mais prodigiosa dentre outras de Saint-Exupéry, pois é em Terra dos Homens que o autor oferece muito de si próprio nos corredores dessa história.

    Sua narração nos leva a refletir sobre as relações humanas e como nos encontramos em um deserto, somente entre a areia e as estrelas, quando permanecemos desempenhando apenas o hábito sem o entusiasmo que deve existir em nossas aspirações, ou exercendo o ritual ganancioso da conjugação do verbo ter.

    A singularidade no contar sobre sua rotina não corrente é muito fascinante, pois sua observação na direção do cenário, e não da cena, nos diz muito sobre a moral do homem nesse panorama do "diariamente".

O mistério está nisso: eles terem tornado esses montes de barro. Por que terríveis moldes terão passado, por que estranha máquina de entortar homens? Um animal ao envelhecer conserva sua graça. Por que a bela argila humana se estraga assim? (...) Só o Espírito soprando sobre a argila pode criar o Homem. (p.167)

    E assim, depois que li Terra dos Homens, pude entender que, quando reconheço ao meu redor a ganância corrompendo ações, quando percebo a estagnação viciando pensamentos, quando observo a monotonia compondo sons e palavras, e quando enxergo o vazio no olhar dos homens, a argila que os formou já endureceu, porque ninguém os sacudiu enquanto era tempo.

07/07/2020

Rumos imprevisíveis de outra descoberta

terça-feira, julho 07, 2020 0 Comments

☼ Divagando no filme ☼


Há 15 dias eu lancei um desafio #divagandonofilme através deste pequeno vídeo, ⇐⇐

Qual é o nome do filme e, se possível, qual é o significado da cena?

  Quem chegou mais perto foi o amigo Vitor Antunes, que respondeu “Estou desconfiando que seja Hitchcock”!
  Sim, é Hitchcock!  Trata-se do clássico filme Psicose, de 1960
  Um filme não se torna um clássico, como Psicose se tornou, à toa!  Em qualquer detalhe está guardado o significado para demandas entusiastas de quem quer saber interpretar o porquê e para quê cada abstração, cada linha e cada gatilho são criados.

  O filme todo é uma taça cheia para quem, assim como eu, gosta de decifrar sinais, contudo, me propus, aqui, a considerar apenas a parte em que lancei o desafio.

Esse outro vídeo aponta toda a sequência da cena. 



  A parte  que aparece o disco de vinil, (LP) Beethoven, é uma das cenas que antecedem o desfecho do mistério que envolve a trama.    Lila Crane, interpretada por Vera Miles, entra na casa de Norman Bates a procura de respostas para o desaparecimento de Marion, sua irmã.  Assustada, ela observa os objetos reunidos no quarto do suspeito. Um quarto infantil, de um filho protegido pela mãe.

  Na sequência podemos notar a série de peças focalizadas. Há um boneco inclinado sobre um automóvel de brinquedo, duas vezes maior do que o carro que o sustenta na prateleira, ao lado, uma miniatura de uma casa parecida com aquela que abriga esse cenário de suspense.
  É através dos olhos de Lila que podemos identificar a relevância de cada peça para a montagem desse quebra-cabeça.

  O boneco é o primeiro objeto a ser notado por ela. A minha interpretação é como se o boneco fosse a representação do dono do quarto, sentindo-se maior em relação aos demais, e, ser maior não significa ser elevado, pois está inclinado!  E nessa posição enviesada que condiciona sua razão, ele permanece assim, talvez por não conseguir ter o que lhe falta para estar em pé. A casa, ao seu lado, é seu ponto de segurança, é o lugar onde ele é um bom filho, mas ele não pode estar dentro da casa todo o tempo...

 Depois, sobre a pequena cama desfeita, repousa um coelho de pelúcia amarelada pelo tempo, expressão zangada e aspecto de brinquedo velho. 
  A presença do coelho, na literatura e no cinema, sempre carregou um  significado triste e silencioso disfarçado de civilidade.
  Trazendo o exemplo que mais reside no senso comum, menciono o coelho de Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas, que é apresentado para o leitor já no primeiro capítulo intitulado “ Na toca do coelho”, aonde Alice, tal como Lila ao embrenhar-se no quarto de Norman, foi parar, atraída pelo animal apressado e confuso, caindo dentro de um poço, que de tão profundo, durante a queda teve tempo de olhar em volta e se perguntar o que viria depois.  

  E o que veio depois?

  Na superfície de uma pequena mesa, discos dispostos fora da capa estão ao lado de um vitrola, indicando que o aparelho fora recém manuseado, cuja melodia, fresca ainda na memória do ouvinte, é exibida com a totalidade que uma imagem pode ostentar: Eroica, 3ª sinfonia de Beethoven.
  É sabido que Beethoven desenvolveu graves problemas de audição e isso transformou também sua música, que passou a ser considerada, pela crítica da época, como música de louco para loucos”.
 Eroica é mais conhecida por seu 2º movimento, marcha fúnebre, mas é no 1º movimento, “Allegro con brio, que é possível melhor aproximar os sons da obra de Beethoven com a trilha sonora composta por Bernard Herrmann, rápida, sincopada e até dissonante. Pode-se perceber essa correspondência no vídeo abaixo, especialmente iniciando em 2'23"




  Por fim,  Lila pega um livro, mas não é qualquer livro! É o livro que nada está indicado em sua lombada, tampouco sua capa assinala sequer o rastro do que nele se encerra. Engenhosa metáfora para a dissimulação de uma perigosa armadilha.

 Sem demora, Lila avista Norman, desassossegado,  retornando à casa, e assim, também acelera os passos para não ser descoberta. Rumos imprevisíveis de outra descoberta.

29/06/2020

Abandono e libertação

segunda-feira, junho 29, 2020

O vácuo das memórias


Sigo , no Youtube, um canal de Portugal chamado Rumo ao Desconhecido. Por meio de sua temática é possível conhecer lugares e casas que, em um tempo passado, constituíam em seu cenário, a presença do cotidiano útil.  Compromissos, sonhos, segredos, conversas, histórias... elementos que produzem animação para uma existência ocupavam os espaços desses locais, e, em cada canto do imóvel e, dentro de cada gaveta, agora revirada,  poderia ser identificada a substância que traduz o som mais harmonioso que um ouvido pode ouvir: vida!
Hoje, dentro desses espaços, é possível encontrar, espalhadas pelo chão, memórias que existem na extensão dos anos, mas não existem na profundidade das datas porque não há quem venha reivindicá-las. São memórias de ninguém! Também percebo os sons aprisionados em discos empoeirados, palavras mudas nas deterioradas páginas de livros cativos de um velho livreiro tombado.  Então, a pergunta que sempre faço, quando olho para esse tipo de triste paisagem, é:

De que forma acontece esse processo de transformar luz em trevas, de converter um lar em lugar estéril?

Como em minha galeria sempre haverá um espaço para as recordações, assistindo a esses episódios, pude recordar daquela música composta por Ivor Lancellotti, antiga e ao mesmo tempo atual,chamada Abandono. Foi gravada por renomados intérpretes e cantores. Fábio Jr., cantor romântico, também a gravou. Eis que observo, em lugar de destaque sobre uma estante empoeirada, a sua foto estampada em uma capa de uma revista antiga, anos 80, deixada para trás, compartilhando lugar com outros impressos também desamparados.





Mais do que coincidência! Reconheço, em minha observação, a sincronicidade especificada por Jung, afinal, os sinais são decifrados por quem os vê.

Eu vi! Eu sempre os vejo porque, em minhas divagações, eu  sempre por eles procuro.

Por consequência fiquei conjecturando essas memórias que não são minhas... A moça, que acompanhava a telenovela, esperava ávida até o final da história para que o beijo, entre os casais apaixonados, finalmente acontecesse, torcendo pelo final feliz. Poderia também ter uma paixão platônica pelo artista e, por isso, adquiriu a revista daquele tempo em que as novelas eram melhor desenvolvidas,  sinônimos de entretenimento; de um tempo em as músicas eram compostas por quem, assim como Ivor Lancellotti, sabia emoldurar sentimentos...
Aquela fotografia, aquele livro marcado na página 20, aquela poltrona acomodada na sala...tudo parece que está à espera de libertação.
Julio Cortázar já escreveu a envolvente história A Casa Tomada, carregada de segredos...
E eu, observadora das minúcias e entrelinhas, logro criar uma distinta história para esse cenário de abandono.
Aguardem pelo próximo conto de Diva Montalbán.

21/05/2020

A quarentena e O Fazedor de velhos

quinta-feira, maio 21, 2020

Observação, leitura e música na quarentena


Nessa época, em que todos nós nos encontramos vulneráveis e desassossegados pela situação instável e preocupante que estamos vivendo,é que pude verificar a falta de empatia para com as pessoas idosas.
O idoso encontra-se no grupo de risco para o Covid-19, mas parece que a maioria o colocou no lugar do causador do risco, uma vez que definiram-no como o ser teimoso que mais atrapalha do que ajuda.

Atualmente é possível encontrar, nas redes sociais, muitas piadas e zombaria como "cata véio", severas críticas e ofensas quando vídeos de idosos vistos nas ruas são exibidos, e comentários agressivos de desaprovação pelo fato de pessoas públicas serem casadas com pessoas mais velhas e terem sido infectadas pelo corona vírus.

Utilizo redes sociais há mais de uma década, e, jamais vi, durante esse tempo todo, tamanha desconsideração pelo idoso como estou testemunhando agora.

Coincidentemente, há alguns dias, uma tia me emprestou o livro O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda.
Um livro de leitura fácil e de enredo despretensioso e espontâneo, conta a história do encontro entre dois jovens que se apaixonam.

Após a narrativa, pus-me a refletir sobre algumas passagens da história contada, analisando, com muita cautela, o conselho dado pelo professor Nabuco, personagem   do livro.

Não queiram nunca ser eternamente jovens; gostar de viver é gostar de sentir, e gostar de sentir é necessariamente, gostar de envelhecer.( Lacerda, Rodrigo. O Fazedor de Velho, p.37, ed.Cosac Naify, 2008.)

Esse pensamento me parece muito questionável.
Bem, se um livro me faz pensar, eu ja o considero um livro bom, ainda que discorde de alguns tópicos, como discordei do pensamento do professor.
Pensar sobre O Fazedor de Velhos me fez localizar, em minha trajetória de vida, muitos episódios em que fui a responsável por fazer jovens.

Assim, não concordo que gostar de sentir é gostar de envelhecer.

Como ja contei por aqui, eu participei de banda marcial. Tocava em procissões religiosas, eventos cívicos e escolares. A banda da qual fazia parte era formada , em maior número, por músicos maiores de 60 anos,  contudo, comportavam-se como jovens - a música tem esse poder!

Lembro-me de que o saudoso Maestro Salvador Gentile, músico que já tinha 80 anos, dizia-me sempre que eu não poderia faltar aos ensaios e apresentações porque eu dava vida para a corporação. Segundo ele, por eu estar sempre sorrindo, fazendo piadas, com bom humor e, acima de tudo, por conversar de igual para igual, sem fazer distinções entre jovens e idosos. - Na verdade , atribuo essa qualidade que ele viu em mim, ao aprendizado que tive por ter a oportunidade de conviver, durante toda a minha vida, com pessoas bem mais velhas, mais sábias e, concluo, mais felizes!- E eu, que a certa altura também já não era tão jovem assim,continuava sendo chamada de " a menina do sax". Vejam vocês, que privilégio! Estava eu a fazer jovens e a me fazer jovem também!

Também criei um grupo musical de serestas. Eu e mais três músicos tocávamos e cantávamos voluntariamente em lares de idosos. Lá não fazíamos velhos, afinal a música tem o poder de fazer com que viajemos para outros tempos. Eles viajavam e se faziam jovens outra vez!

Em outra ocasião da leitura, pude observar, de acordo com meu entendimento, a incompatibilidade da representação social feita de quem carrega um livro.

Em O Fazedor de Velhos há um momento em que o personagem que conta a história traz consigo um exemplar antigo de Shakespeare, com o objetivo de aparentar mais idade do que tem realmente, pois julgava que o livro o faria envelhecer.

Imagino que um livro jamais fará uma pessoa se tornar aparentemente mais velha pelo simples fato dela se interessar por literatura.
Livro é sinônimo de conhecimento, e conhecimento é descoberta.  A descoberta que faz tudo ficar diferente e novo. Novo é antônimo de velho.

Concordo que gostar de viver é gostar de sentir, todavia, professor Nabuco que me desculpe, mas gostar de sentir se harmoniza com o querer estar jovem, porque só quem é jovem, independentemente de qual idade possua, gosta de descobrir sentimentos e sensações, gosta de aprender, gosta de se surpreender... 

E nesse período crítico de pandemia, em que o ser velho é julgado e condenado por simplesmente ter vivido mais, penso que estar jovem seja a possibilidade de mostrar aos outros que viver é amar.

07/02/2020

Uma conversa com professor Balsano

sexta-feira, fevereiro 07, 2020
 Em 2018  tive a oportunidade de conhecer o notável professor  Balsano quando cursei sua disciplina, Ópera Poética, na qual aprendi muito mais do que saber sobre suites orquestrais e sonatas barrocas. 
Um dia, no término de uma aula, ele me flagrou cantarolando uma música que compus, e, demonstrando muito interesse, perguntou que música estava eu a solfejar.
Assim, contei-lhe sobre minhas composições, meus projetos musicais, e ainda cantei um samba que havia composto dias antes, chamado Sabor de Ilusão, ainda inédito.
Após isso, e sempre recordo-me dessa passagem que julgo ser um imenso incentivo para mim, ele disse meneando positivamente a cabeça: Extraordinário!

E hoje, recebo esse presente de ser mencionada e elogiada em sua coluna Música em Foco. Fiquei muito feliz!
Deixo aqui a reprodução da matéria, e aproveito para manifestar meu grande carinho por você, professor Balsano, e meu eterno agradecimento pelos ensinamentos. Muito obrigada! #gratidão

 




                 

04/11/2019

Bico Doce do Fogaréu

segunda-feira, novembro 04, 2019



E a procissão das almas


Ele não foi um daqueles moços que saiam de suas cidades para estudar Direito no largo de São Francisco e que não retornariam mais para o interior. Ele retornou. Sua família, apesar de manter negócios em Iguape, residia em Buenos Aires, e ele, ao retornar para Iguape, recebeu o convite de um ilustre Major para que se hospedasse em seu casarão. O Major o queria como a um filho. 
Simpatizantes diziam que ele havia concluído o curso de Direito, porém outros, analíticos da vida alheia sem saber o que realmente criticar, afirmavam de pés juntos que ele fora um aluno omisso e voltou escorraçado da faculdade. 
O fato é que ele voltou, para a alegria dos amigos, e das donzelas e senhorinhas que enchiam suas vistas admirando a beleza do rapaz. 
Apreciador da leitura de poesias, recitava poemas e declamava versos nos saraus realizados pela sociedade iguapense da época, e, em razão de sua retórica expressiva e sedutora e de seu porte apolínio viril, era chamado à boca miúda de Bico Doce. 
Seu pai lhe dera terras lá pelos lados do Prelado, e o enredo das conversas nas ruas da cidade contava que era lá que ele consumava suas conquistas amorosas. 
Certa vez, prejudicado pelo falatório incontrolável das vozes indiscretas, Bico Doce sofreu as consequências de sua conduta. Um senhor poderoso e influente na cidade buscava sua vingança reparadora para tamanha desonra que lhe fora endereçada. Bico Doce havia seduzido e desonrado a filha do melhor amigo de seu pai. 

Qual seria a pior punição para tal aviltamento? 
Colérico, o pai da moça disse: — Terá que andar ajoelhado na procissão das almas! 
A pena causou estarrecimento até no padre da cidade, que rogando pelo perdão do enfurecido pai, só escutou a seguinte ordem: — Fique fora deste assunto, padre. Não tente demover-me desta determinação, ou o senhor deseja ser o padre deste cortejo? 

É sabido até hoje que tal procissão não é para ser vista pelos vivos, e o ser vivente que ousar seguir o percurso das almas, perderá o lugar entre os vivos e se transformará em mais uma sombra incorporada neste cortejo. 

 Dizem que até hoje, Bico Doce é visto, pelas frestas das janelas dos mais corajosos, marchando na temida procissão, sem ter envelhecido, vestido com seu terno de linho à moda dos antigos coronéis, impecável com exceção da mancha amarelada nos joelhos da calça porque, para pagar uma desonra, fora obrigado acompanhar ajoelhado a procissão das almas, e no término do cortejo, teve seu corpo tomado, em frente à igreja, por um fogaréu rodeado pelos fantasmas aprisionados que avançavam pela procissão.

03/10/2019

O Gato de Simenon

quinta-feira, outubro 03, 2019

Divagando sobre o livro

Eu li 'O Gato' de Simenon há algum tempo, é verdade, mas hoje ( finalmente) resolvi registrar a obervação que tive  depois de conhecer a história.
arquivo pessoal (aproveitei a oportunidade de fotografar o
livro em cima da caixa da minha gatinha Lili)
É  evidente a  natureza psicológica presente na narrativa, e a respeito disso, um olhar mais pautado alcança essa condição.
 Essa natureza, característica predominante da história, pode ser reconhecida através da total infelicidade existente nas ações e pensamentos dos personagens. 
Um casal  se liga, não por amor, mas  pela falsa conveniência de um casamento. Eles tentam afastar a solidão que sentem, mas acabam se tornando pessoas ainda mais solitárias.
Nesse relacionamento, o que o autor deixa mais visível é a raiva que cada um sente de si próprio por ter de estar com o outro, por saber que não há possibilidade de viver de outra maneira além dessa que está vivendo, e, principalmente por não conseguir explicar ou justificar a razão pela qual permanece nesse cenário adoecido.
A realidade é que muitas escolhas ruins são feitas por conta do temor  da solidão, e preocupação pelo pensamento e julgamento alheio. Estar preocupado com o julgamento de outras pessoas, com o que outros pensariam, faz daquele que age de maneira condicionada para não ser julgado um ser desafortunado.
 Um velho casal sem viço. As pessoas que os encontravam, fornecedores e vizinhos, não os julgariam lastimáveis, grotescos? E o que não pensariam se pudessem vê-los dentro de casa? (página 81, ed. Nova Fronteira, 1981)

O fator decisivo para que os dois  se odiassem mais foi o envenenamento do gato. Ele a acusava de ter envenenado seu gato de estimação, e ela, por sua vez, argumentava que ele, por vingança, havia atacado sua arara, também de estimação.

O livro nos dá detalhes de uma vida desvalida. Os dois, marido e esposa, são pessoas deprimidas com o propósito de flagelar um ao outro. E o que os rodeava estava também se deteriorando... A casa, os móveis, as lembranças... Nem a morte os salvaria, porque já haviam perdido a vida nessa existência a dois. Afirmo que é uma história deprimente, e infelizmente acontece muito por ai...


Como usual ,para mim, agregar à postagem uma música, deixo aqui Enrique Bunbury cantando a sina de um pobre infeliz.




24/04/2019

Eu ando pelo mundo...

quarta-feira, abril 24, 2019

Em A Condição Humana, André Malraux faz a seguinte reflexão: 

"O que importa o que só me importa a mim?" 


Pelo menos isso acontece na maioria dos casos. Exatamente o que importa para as pessoas é somente o que é de interesse delas, o que está ligado diretamente ao seu quadro, sua conjuntura, viver o seu momento.
 E outros que estão ao redor delas, por vários motivos, inclusive por convocação imperativa para tal situação , acabam ficando sem o valimento, sem que sejam consideradas suas escolhas, seus pensamentos, suas opiniões.
Em suma, a condição humana é essa que segue nos trilhos. A maioria dita o que é certo, mesmo sendo o errado. Quem normalmente considera o próximo, ponderando o quadro com a extensão de toda a paisagem, não somente o reflexo dos próprios desejos, é a minoria quase nula, e por ser a minoria, é excluída, afinal, não está nos trilhos!
Eu me sinto a minoria...
Porque também, na maioria, está contida a sensação do "tanto faz" para o outro que chora ou ri,  quer ou não quer, gosta ou não gosta...

O "Tanto Faz" reverte a soma em subtração...a escassez do som, do sorriso, da pintura. Veste um traje rotineiro de um remoto e ermo caminho...é como pegar trem para o sul e estar indo para o leste .. O sul estava logo ali mas é tão difícil de alcançar... 
Ir para longe e voltar, ou não voltar, tanto faz...

Portar a liberdade contemplativa para apreciar as coisas é muito bom, todavia isso me torna um pouco dispersiva... e eu fico pensando, pensando, pensando... porque eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone...






13/11/2018

Ibys Maceioh e seu perfil poético

terça-feira, novembro 13, 2018
Há algumas semanas, tive a alegria de receber um presente muito especial.
Através do Clube do Choro de Santos e do querido amigo Jotarelli, músico e artista plástico, pude apreciar  a obra poética e musical de Ibys Maceioh.














Seu álbum de trabalho, Perfil,  é um mix de chorinho,  samba, forró, balada romântica, seresta... E tudo isso embalado por sua voz suave quando canta a poesia das letras que descrevem amores apaixonados e dores nem sempre cicatrizadas.

Feliz em poder ter contato com essa arte peculiar que Ibys Maceioh nos brinda.


Muita gratidão por esse momento, essa nova amizade e essa oportunidade.
Segue , no Youtube,  o CD Perfil, divulgado no canal do artista.


11/09/2018

O Gênio que queria ser Homem

terça-feira, setembro 11, 2018




𝕺 ê𝖝𝖎𝖙𝖔 𝖈𝖔𝖓𝖘𝖎𝖘𝖙𝖊 𝖊𝖒 𝖆𝖑𝖈𝖆𝖓ç𝖆𝖗 𝖔 𝖖𝖚𝖊 𝖘𝖊 𝖉𝖊𝖘𝖊𝖏𝖆; 𝖆 𝖋𝖊𝖑𝖎𝖈𝖎𝖉𝖆𝖉𝖊,𝖊𝖒 𝖉𝖊𝖘𝖊𝖏𝖆𝖗 𝖔 𝖖𝖚𝖊 𝖘𝖊 𝖆𝖑𝖈𝖆𝖓ç𝖆. "  
( Ditado Popular)
Venho divulgar a pré-venda, no site Amazon, de um conto que escrevi há muito tempo, mas somente agora, dia 17 de setembro, será lançado em formato e-book.

Este conto, para mim, é muito especial, pois o escrevi a partir de uma reflexão sobre o que poderia representar a felicidade para os homens. 
Cada pessoa deve julgar por si própria o que é a felicidade em sua vida... Todavia, a maioria não deve negar que a felicidade será sempre achar um caminho a seguir, e seguí-lo com sorriso no rosto. 

Muitos consideram que na imaterialidade há a dificuldade para ser feliz. Nesse caso, penso eu,  só encontrão apenas a  satisfação no palpável, no factual. Contudo, quem tem a simplicidade e a genuinidade em seu ser, encontrará a felicidade em qualquer caminho que seguir.
Sempre com a pureza da resposta das crianças... Viva a vida bonita!!!! 


25/06/2018

Marcílio Moraes - Entre as Estrelas: Aquiles

segunda-feira, junho 25, 2018

A saga de um autor de telenovelas



 Marcílio Moraes, ao nos contar a ‘a saga de um autor de telenovelas’, nos inclina a fazer uma correspondência com Aquiles, o herói vingativo da mitologia grega e guerreiro mais forte e superior da Ilíada, poema épico de Homero.
Tal como Homero descreve a Ira de Aquiles, já é possível considerar que encontraremos muita cólera e rancor nesta saga.
De fato!  Na primeira página de 'Entre As Estrelas: Aquiles', a ira do protagonista João Carlos (Joca), o autor de telenovelas, já é evidenciada.  Antes mesmo, pela capa do livro: o mar cinza e turvado, a vista que o novelista tem de seu estúdio, preconiza tempos escurecidos.
Em razão de alterações em seus planos, alterações estas feitas pelo próprio “Agamenon” da emissora de televisão em que Joca trabalha, conhecemos o que há de mais verdadeiro na natureza de um homem: O pensamento.
E o pensamento de Joca carregado de fel, tão bem reproduzido, é concebido de maneira ininterrupta, sem pontuação, linha contínua, onde as palavras de uma mesma frase competem entre si, espelhando a intranquilidade que fez moradia naquele ser.
Não me é familiar o ambiente da televisão onde Joca trabalha, todavia, introduzida nessa atmosfera através das páginas de 'Entre as Estrelas' e pelas páginas, é possivel reconhecer que se trata de um ambiente em que a comercialização  de imagens e produtos se faz mais importante do que a própria arte; que a palavra dada é a dúvida; e que a pessoa pertencente  a esse meio acredita ser virtuosa e abençoada pelo dom do talento artístico e nada pode derrubá-la.
Entre as Estrelas: Aquiles (2018) ao lado de Ilíada (edição:1961)
Aquiles não foi um deus. Joca também não é!  Trata-se do homem, e como todo homem, é feito do pó do solo, do barro, com qualidades e defeitos. Uns com mais defeitos do que outros.
É praticável  entender Joca em vários momentos.   (((Também vim do barro (não da costela) :D ))  

Às vezes é impossível  disfarçar, com sorriso, o desconforto ao notar a hipocrisia que se hospeda em alguns ambientes sociais; em que  fariseus , tal como o autor Marcílio Moraes  bem apontou, caminham em nossa direção apenas com braços abertos, mas com ausência de uma cabeça, assim como a escultura  de  Nice de Samotrácia, prontos para nos causar danos.
Entretanto, os defeitos contidos nele comprovam que ele muitas vezes faz uso das mesmas armas de seus inimigos. Talvez porque ele saiba que Aquiles não morre na Ilíada... e  que para estar entre as estrelas é necessário que o céu esteja escuro...
Só me restou a pergunta:
Se a previsão for chuva, por que não Gabardine?


" O escritor percebeu o arpão se desprender da arma rumo ao seu peito.Fosse resistir, este era o momento. Ou então deixar ofrio aço atravessar o coração e ir se contorcer inultilmenteno fundo lamacento" (pg.67, Moares, M.)

Tal trecho me fez ouvir a divina voz de Bob Darin, alertando que o tubarão mostra seus dentes brancos perolados... " Não se meta com ele!" ;)